O fato de o narrador ser a própria vítima e o leitor só saber isso no final do texto é o que torna esse conto muito interessante. Trata-se de um narrador personagem onde o mesmo pretende ainda nos fazer acreditar que ele e Manuel Soares são duas pessoas distintas, mas descreve suas próprias atitudes. O narrador se refere a Manuel Soares como se fosse uma 3ͣ pessoa – e não ele mesmo. Todo o tempo é como se ele fosse o vilão e Manuel Soares, a vítima.
Quando ele diz que precisou conhecer Manuel Soares melhor para poder odiá-lo, atentando para suas características negativas; diz também “somos colegas de repartição”, como se fossem duas pessoas; diz “será que presente alguma coisa?” e “surpreendi-o”; diz “Manuel Soares será assassinado, e não eu”. Manuel Soares é o próprio narrador, marido de Isabel.
O texto nos apresenta uma história de amor entre Manuel Soares e Isabel, que chegou ao fim. Isabel é esposa de Manuel Soares, mas ela não o ama mais, está apaixonada por outro homem. A frase “fogo em que se tem consumido lentamente (emagrece e chora em silêncio, tem os olhos ardidos e o corpo trêmulo)” tem indícios de que ele e Isabel têm intimidade, vivem juntos. Esse é o fogo da paixão, porque ela é casada e não pode ficar junto do seu grande amor.
Tendo conhecimento disso, Manuel Soares contratou um pistoleiro, um matador profissional para dar cabo a sua vida. Porque ele deve amar muito sua mulher, Isabel, e não queria viver sem ela; ou, por amá-la muito, deseja que seja feliz, mesmo que seja com outro. Para Isabel não sofrer, é realmente necessário tirar Manuel Soares do caminho dela, ou seja, ela só será feliz se ele não existir mais, porque ele atrapalha a vida dela, impede que ela viva seu grande amor.
Isabel estava infeliz ao lado de Manuel Soares. Os sintomas são o choro constante (tem os olhos ardidos, chora em silêncio), falta de apetite (emagrece), sofre fisicamente (tem o corpo trêmulo). Ela sofre porque ama outro homem e não o seu marido.
Mas para dar um fim em sua vida, Manuel Soares precisava ter mais motivos (risos), pois isso ele precisou se concentrar em conhecer seus defeitos, suas características negativas para então ter motivos suficientes para alimentar o ódio que o levaria ao assassinato. Mas por que ele precisou contratar um pistoleiro profissional? Porque, se ele mesmo matasse Manuel Soares, Isabel sentiria culpa e não poderia ser feliz com o grande amor de sua vida. Tem base? Não! A intenção de Manuel Soares é não deixar Isabel sofrer.
Enfim, haveria outra solução para o problema de Manuel Soares? Claro que sim: ele poderia se separar definitivamente dela e recomeçar sua vida. Eis o ponto onde gostaria de chegar. Ao ler esse conto pela milésima vez (risos), comecei a pensar sobre os vários casos de assassinatos de mulheres, cometidos por ex-namorados/maridos. Os casos mais famosos são da advogada Mercia Nakajima e da modelo Eliza Samudio, que foram brutalmente mortas, e têm como suspeitos seus respectivos ex-companheiros.
Portanto, Homens iguais ao personagem fictício Manuel Soares não existem. Pelo menos no que diz respeito a tirar sua própria vida para deixar sua “amada, ex-amada” ser feliz com outra pessoa. Agora, aceitar um não, saber admitir que chegou ao fim um relacionamento, recomeçar sua vida sem problemas, é o mínimo que um Homem consciente pode ter em um fim de “relacionamento”. É isso!
Jamelão, na moral! 